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Eleição presidencial esfria o mercado imobiliário? O que 20 anos de ITBI mostram

Comparamos o ritmo de compras e vendas em São Paulo nos anos de eleição presidencial com os demais anos. Há um recuo em outubro — pequeno demais para ser distinguido do acaso. E o preço não se mexe.

Publicado em · Por Flow Imóveis · CRECI 26.342-J · 6 min de leitura

−5,1
pontos de índice em outubro nos anos de eleição
0,35
chance de uma diferença assim surgir por acaso
+0,4
pontos em setembro — nenhuma diferença
1,8 mi
guias de compra e venda na base (1.839.797)

A pergunta

Todo ano de eleição presidencial traz a mesma conversa no mercado imobiliário: comprador segura a decisão até saber quem ganha, vendedor espera o humor melhorar, e o mercado "para" entre setembro e outubro. É uma das crenças mais repetidas do setor.

O ITBI de São Paulo permite testá-la. Toda compra e venda registrada na capital passa por uma guia de imposto com data, e a base cobre cinco eleições presidenciais completas: 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022.

Como comparar sem confundir eleição com crise

Comparar o número de vendas de outubro de 2014 com outubro de 2013 não serviria: 2014 teve menos negócios que 2013 por causa da recessão que começava, não por causa da urna. Qualquer comparação direta misturaria o efeito eleitoral com o ciclo econômico de cada ano.

Por isso cada mês vira um índice: o número de vendas do mês dividido pela média mensal do próprio ano, vezes 100. Um outubro com índice 110 é um outubro 10% acima do mês típico daquele ano — seja o ano bom ou ruim. Isso tira o nível e a tendência de cada ano e deixa só o desenho do calendário, que é o que a pergunta quer saber.

Depois, comparamos a média desse índice nos cinco anos de eleição com a média dos outros quinze anos, mês a mês.

Ano de eleição contra os demais, mês a mês

O desenho do ano é muito parecido nos dois grupos: janeiro e fevereiro fracos, dezembro forte. As diferenças:

Diferença do índice de vendas: anos de eleição menos demais anos (pontos)
+4,2Jan+2,6Fev−5,3Mar+1,2Abr+8,5Mai+0,1Jun−1,7Jul−1,7Ago+0,4Set−5,1Out−1,8Nov−1,3Dez
Em destaque, setembro e outubro — os meses da campanha e da votação.
MêsAnos de eleiçãoDemais anosDiferença
Janeiro78,774,5+4,2
Fevereiro86,884,2+2,6
Março103,7109,0−5,3
Abril96,295,0+1,2
Maio108,199,6+8,5
Junho101,4101,3+0,1
Julho102,0103,7−1,7
Agosto109,0110,7−1,7
Setembro102,5102,1+0,4
Outubro101,2106,3−5,1
Novembro96,698,4−1,8
Dezembro113,8115,1−1,3
Índice = vendas do mês ÷ média mensal do próprio ano × 100. Anos de eleição: 2006, 2010, 2014, 2018, 2022. Demais: os outros 15 anos de 2006 a 2025.

Outubro, o mês do primeiro e do segundo turno, aparece 5,1 pontos abaixo. Setembro, o mês da campanha na televisão, não mostra nada: +0,4. Mas repare em março (−5,3) e maio (+8,5): diferenças do mesmo tamanho aparecem em meses que não têm nenhuma relação com eleição. Esse é o tamanho do ruído com que se está lidando.

Outubro, ano a ano

O recuo de outubro é uma média de apenas cinco anos, e vale olhar cada um. Nenhum outubro eleitoral foi o pior da série; o pior foi 2015, ano de recessão sem eleição. E o maior de todos, 2020, é o rebote da pandemia — que está no grupo de comparação e puxa a média dos demais anos para cima.

Outubro contra o mês típico do próprio ano, ano a ano (%)
−0,7’06+7,2’07+9,8’08−5,1’09−6,8’10−8,1’11+6,9’12+9,0’13+5,5’14−15,7’15+4,6’16+6,3’17+10,8’18+15,4’19+32,3’20−1,6’21−2,7’22+8,6’23+12,2’24+12,2’25
Em destaque, os anos de eleição presidencial (2006, 2010, 2014, 2018, 2022).
AnoÍndice de outubroEleição presidencial
200699,3Sim
2007107,2
2008109,8
200994,9
201093,2Sim
201191,9
2012106,9
2013109,0
2014105,5Sim
201584,3
2016104,6
2017106,3
2018110,8Sim
2019115,4
2020132,3
202198,4
202297,3Sim
2023108,6
2024112,2
2025112,2
Índice 100 = mês típico do próprio ano.

É acaso?

Com cinco anos de um lado e quinze do outro, dá para fazer o teste mais honesto que existe: listar todas as 15.504 formas de escolher cinco anos entre os vinte e ver com que frequência um grupo qualquer de cinco anos fica tão abaixo dos outros quanto os anos de eleição ficaram. Se for raro, a eleição tem algo de especial. Se for comum, não dá para separar o efeito do acaso.

ComparaçãoDiferençaChance de acasoQueda mínima detectável
Outubro · 5 eleitorais × 15 demais−5,10,35−8,6
Outubro · sem 2020 (rebote da pandemia)−3,20,48−7,4
Outubro · sem 2020 e sem 2015 (recessão)−4,80,21−6,3
Setembro · 5 eleitorais × 15 demais+0,40,91−5,7
Teste de permutação exato. "Queda mínima detectável": diferença que só 5% dos grupos sorteados alcançam — abaixo dela, o desenho não consegue distinguir efeito de acaso.

Nas três versões de outubro, a chance de acaso fica entre 0,21 e 0,48 — muito longe do patamar usual de 0,05. E o recuo observado é sempre menor que a queda mínima que este desenho conseguiria detectar.

Note também que a diferença muda conforme os anos que ficam na comparação: tirar 2020 a leva para −3,2; tirar também 2015, para −4,8. Um resultado que oscila assim com a escolha de um ano é sinal de amostra pequena, não de efeito firme.

E o preço?

Se a eleição fizesse o comprador sumir, o vendedor que precisa vender teria de baixar o preço. O metro quadrado mediano de julho a outubro de cada ano eleitoral não mostra isso:

AnoJulhoAgostoSetembroOutubroOut. vs. jul–set
2006R$ 1.271R$ 1.262R$ 1.266R$ 1.274+0,6%
2010R$ 1.740R$ 1.753R$ 1.770R$ 1.825+4,0%
2014R$ 3.097R$ 3.046R$ 3.119R$ 3.125+1,2%
2018R$ 3.438R$ 3.429R$ 3.482R$ 3.463+0,4%
2022R$ 4.079R$ 4.074R$ 4.094R$ 4.135+1,3%
Mediana do valor por m² construído, em valores nominais. Compra e venda com transmissão integral, valor a partir de R$ 50 mil e R$/m² a partir de R$ 1.000 (exclui valores declarados pelo venal).

Em nenhum dos cinco anos o metro quadrado de outubro ficou abaixo da média dos três meses anteriores. O preço segue a trajetória normal do ano — eleição não abre janela de desconto.

O que o dado não permite dizer

Os limites que importam para quem for usar este resultado:

  • •Que não existe efeito nenhum. Ausência de prova não é prova de ausência. O que o ITBI mostra é que, se a eleição tira negócios de outubro, tira menos do que cinco eleições conseguem revelar. Um efeito pequeno pode existir abaixo desse piso.
  • •O que aconteceu em 2026. A base de ITBI usada aqui termina em 7 de agosto de 2026, e a eleição deste ano teve primeiro turno em 4 de outubro, com segundo turno em 25 de outubro. As guias de setembro a novembro ainda não foram publicadas pela prefeitura. Este estudo fala das cinco eleições anteriores, não da atual.
  • •Que a decisão de compra não é adiada. O ITBI registra a transmissão do imóvel, que acontece semanas ou meses depois da decisão. Uma decisão adiada em setembro poderia aparecer como venda a menos em novembro ou dezembro — e novembro e dezembro dos anos eleitorais também não mostram nenhum buraco nem nenhum rebote.
  • •Falar de outras cidades ou de lançamentos. A base é a capital paulista e conta compras e vendas registradas de imóveis de todos os tipos.

A leitura

Em vinte anos de ITBI de São Paulo, ano de eleição presidencial não se distingue de um ano qualquer — nem no volume de vendas, nem no preço. Há um recuo aparente em outubro, de 3,2 a 5,1 pontos conforme a comparação, que é consistente com a crença do mercado mas pequeno demais para ser separado do acaso.

Para quem está comprando ou vendendo, a consequência é direta: a eleição não é motivo para adiar uma decisão, nem uma oportunidade de preço. O que move o mercado ao longo do ano é o calendário de sempre — e, com atraso de alguns meses, o juro.

Ficha técnica

Fonte dos dados: Guias de ITBI pagas, publicadas pela Prefeitura de São Paulo, importadas e tratadas pela Flow Imóveis.

Objeto
Compras e vendas de imóveis em São Paulo (capital) registradas no ITBI
Base
1.839.797 registros de compra e venda, de 2006 a 7 de agosto de 2026
Recorte de volume
Compra e venda com transmissão integral (proporção transmitida acima de 99%), todos os tipos de imóvel, contadas pela data da transação
Recorte de preço
O de volume, mais valor a partir de R$ 50 mil, área construída informada e R$/m² a partir de R$ 1.000 — corta guias declaradas pelo valor venal e terrenos sem construção. Os dois recortes são diferentes de propósito: aplicar o corte de preço ao volume excluiria vendas legítimas
Índice sazonal
Vendas do mês ÷ média mensal do próprio ano × 100, para isolar o calendário do ciclo econômico de cada ano
Grupos
Anos de eleição presidencial: 2006, 2010, 2014, 2018, 2022. Controle: os outros 15 anos de 2006 a 2025
Estatística
Teste de permutação exato: todas as 15.504 divisões possíveis de 20 anos em grupos de 5 e 15. Bilateral
Sensibilidade
Refeito sem 2020 (rebote pós-pandemia, o maior outubro da série) e sem 2020 e 2015 (recessão)
Preços
Valores nominais, sem correção pela inflação

Perguntas frequentes

Ano de eleição diminui as vendas de imóveis?+

Em São Paulo, não de forma que os dados consigam confirmar. Nos cinco anos de eleição presidencial desde 2006, outubro ficou 5,1 pontos de índice abaixo dos demais anos, mas a chance de uma diferença assim surgir por acaso é de 0,35. Setembro não mostra diferença nenhuma.

O preço dos imóveis cai em ano de eleição?+

Não. Em nenhuma das cinco eleições presidenciais desde 2006 o metro quadrado mediano de outubro ficou abaixo da média de julho a setembro. O preço segue a trajetória normal do ano.

Vale a pena esperar a eleição para comprar um imóvel?+

Pelos dados de vinte anos de ITBI em São Paulo, a eleição não abre janela de desconto nem muda o ritmo do mercado de forma mensurável. A decisão deve seguir as condições da compra — preço negociado, taxa de financiamento e o imóvel certo — e não o calendário eleitoral.

E a eleição de 2026?+

Ainda não dá para medir. A base de ITBI publicada pela prefeitura termina em agosto de 2026, e o primeiro turno foi em 4 de outubro. Quando as guias de outubro e novembro forem publicadas, o estudo pode ser refeito com seis eleições.

Posso citar este estudo?+

Pode, com crédito a "Estudos Flow Imóveis" e link para esta página. Recortes específicos — por tipo de imóvel, por região ou por faixa de preço — podem ser solicitados pelo WhatsApp desta página.

Imprensa e citação

Este estudo é de livre citação, com crédito e link para esta página. Jornalistas que precisarem de recortes específicos — por bairro, por faixa de metragem ou por prédio — podem falar diretamente com a equipe que produziu a análise.

FLOW IMÓVEIS. Eleição presidencial esfria o mercado imobiliário? O que 20 anos de ITBI mostram. Estudos Flow, São Paulo, 5 de outubro de 2026. Disponível em: https://flowimoveis.imb.br/estudos/eleicoes-presidenciais-e-vendas-de-imoveis-sao-paulo/
contato@flowimoveis.imb.br
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