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Selic e vendas de imóveis em São Paulo: o juro pesa, mas 5 meses depois

Cruzamos duas décadas de compras e vendas registradas no ITBI com a taxa Selic. O nível do juro não diz nada; a mudança do juro diz — com 5 meses de atraso e menos força do que se costuma imaginar.

Publicado em · Por Flow Imóveis · CRECI 26.342-J · 7 min de leitura

−3,0%
nas vendas para cada ponto a mais na Selic
5 meses
de atraso entre a mudança do juro e as vendas
16%
da oscilação das vendas acompanha a Selic — o resto é outra coisa
−0,02
correlação entre o nível da Selic e o volume de vendas: nenhuma

A pergunta, e por que a resposta óbvia está errada

Juro alto encarece o financiamento, e financiamento é o que move boa parte das compras de imóvel. Então, quando a Selic sobe, as vendas caem — certo? A pergunta parece de resposta pronta. Os dados de São Paulo dizem que ela é verdadeira só em parte, e de um jeito diferente do que se costuma contar.

O primeiro teste que quase todo mundo faria é comparar a Selic média de cada ano com o número de vendas daquele ano. Feito com vinte anos de ITBI, ele dá correlação de −0,02 — ou seja, nenhuma. Anos de juro alto tiveram muitas vendas, anos de juro baixo tiveram poucas, e vice-versa.

Isso não quer dizer que o juro não importa. Quer dizer que comparar níveis é a pergunta errada: o mercado de São Paulo cresce ao longo do tempo por razões próprias, e o juro sobe e desce por outras. Correlacionar as duas séries cruas mede a maré de cada uma, não a relação entre elas.

Como medimos: a mudança de um contra a mudança do outro

Em vez do nível, o estudo compara variações de 12 meses dos dois lados: quanto as vendas de um mês cresceram ou caíram em relação ao mesmo mês do ano anterior, contra quantos pontos a Selic subiu ou caiu no mesmo intervalo. Essa troca resolve dois problemas de uma vez — remove a tendência de longo prazo e remove a sazonalidade, porque cada mês é comparado com ele mesmo.

As vendas vêm das guias de ITBI de São Paulo: compra e venda com transmissão integral do imóvel, contadas pela data da transação. A Selic é a série oficial do Banco Central.

O efeito aparece com atraso — e o atraso não foi escolhido a dedo

Testamos todas as defasagens de 0 a 15 meses: a mudança da Selic de um mês contra a mudança das vendas no mesmo mês, um mês depois, dois meses depois, e assim por diante. A correlação começa fraca, cresce, atinge o pico em 5 meses e depois decai devagar.

Correlação entre Selic e vendas, por meses de atraso
−0,250−0,311−0,352−0,383−0,394−0,405−0,406−0,397−0,388−0,369−0,3310−0,2911−0,2612
Eixo horizontal: meses entre a mudança da Selic e a das vendas. Barra mais longa = relação inversa mais forte.
Atraso (meses)Meses comparadosCorrelação
0235−0,25
1234−0,31
2233−0,35
3232−0,38
4231−0,39
5230−0,40
6229−0,40
7228−0,39
8227−0,38
9226−0,36
10225−0,33
11224−0,29
12223−0,26
Correlação entre a variação de 12 meses da Selic e a variação de 12 meses das vendas, com o atraso indicado. Quanto mais negativa, mais forte a relação inversa.

O formato importa mais que o pico. Uma curva que sobe e desce suavemente, com um único máximo, é o que se espera de um efeito real que se espalha no tempo. Ruído produziria picos soltos em atrasos sem sentido.

O atraso também tem explicação prática. O ITBI registra a transmissão do imóvel, que vem depois da decisão de compra, da aprovação do crédito e da escritura. Parte desses meses é o tempo do próprio processo de compra; a outra parte é o tempo que o juro leva para chegar à taxa do financiamento e ao bolso de quem compra.

Quanto pesa

No atraso de 5 meses, cada ponto percentual a mais na Selic veio acompanhado, em média, de uma queda de 3,0% nas vendas. Uma alta de três pontos no juro corresponde a algo perto de 9% menos negócios meio ano depois.

A correlação é de −0,40 em 230 meses. Para saber se isso poderia ser acaso, embaralhamos a série de vendas em blocos de 12 meses — e não mês a mês, porque meses vizinhos se parecem e embaralhá-los um a um exageraria a confiança. A chance de uma relação dessa força surgir por acaso ficou em 0,0005.

Real, mas pequeno

A Selic acompanha só 16% da oscilação das vendas. Os outros 84% são renda, emprego, crédito imobiliário, lançamentos, confiança e tudo o mais que move o mercado. O juro é um fator relevante, não o fator.

Juro subindo, juro caindo

Separando os meses pela direção da Selic 5 meses antes, a diferença fica visível sem estatística nenhuma:

Variação média das vendas, conforme a Selic 5 meses antes (%)
−8,7Selic subindo+10,2Selic estável+8,6Selic caindo
Selic 5 meses antesMesesVendas: variação médiaVariação mediana
Selic subindo101−8,7%−10,4%
Selic estável14+10,2%+10,1%
Selic caindo91+8,6%+7,8%
Variação das vendas contra o mesmo mês do ano anterior. "Estável" = Selic com variação de até 0,25 ponto em 12 meses. Sem 2020 e 2021.

Com o juro subindo, as vendas encolheram em média; com o juro caindo ou parado, cresceram. O grupo "estável" tem poucos meses e não serve para tirar conclusão própria.

O resultado sobrevive quando tiramos as crises

Duas anomalias poderiam estar fabricando a relação: a pandemia, quando juro e vendas despencaram e se recuperaram ao mesmo tempo, e a recessão de 2015–2016. Refizemos a conta sem elas.

RecorteMesesCorrelaçãoEfeito de +1 ponto
Série completa230−0,40−3,0%
Sem 2020–2021 (pandemia)206−0,46−2,4%
Sem pandemia e sem 2015–2016 (recessão)182−0,55−2,2%
Sempre com o atraso de 5 meses.

A correlação fica mais forte, não mais fraca: vai de −0,40 para −0,55. As crises atrapalhavam o sinal em vez de criá-lo. É o oposto do que acontece quando um resultado depende de alguns meses extremos.

Ano a ano: por que o nível engana

A tabela anual mostra o problema da comparação ingênua. 2015 e 2016 tiveram Selic alta e poucas vendas; mas 2023 e 2025 tiveram Selic igualmente alta e vendas muito maiores. O mercado de 2025 não é o de 2015 — e o que a Selic explica é o desvio em torno dessa trajetória, não a trajetória.

AnoSelic médiaCompras e vendasVariação no ano
200615,28%90.436—
200711,98%97.424+7,7%
200812,35%109.948+12,9%
200910,06%100.722−8,4%
20109,80%103.542+2,8%
201111,66%97.301−6,0%
20128,53%93.223−4,2%
20138,18%94.532+1,4%
201410,86%78.808−16,6%
201513,37%64.506−18,1%
201614,08%57.693−10,6%
201710,08%63.524+10,1%
20186,48%68.727+8,2%
20195,94%78.251+13,9%
20202,79%80.413+2,8%
20214,42%112.920+40,4%
202212,43%90.136−20,2%
202313,20%87.730−2,7%
202410,84%102.503+16,8%
202514,32%106.247+3,7%
Compra e venda com transmissão integral, por data da transação. Selic média dos 12 meses do ano.

Mesmo no anual, a relação aparece quando se compara variação com variação: a mudança da Selic média de um ano para o outro contra a mudança das vendas tem correlação de −0,39.

O que o dado não permite dizer

Os limites deste estudo são tão importantes quanto o resultado.

  • •Que a Selic causa a queda. A Selic sobe quando a inflação aperta, e o mesmo aperto corrói renda, encarece o crédito por outros canais e derruba a confiança. Qualquer um desses pode ser o que de fato move as vendas. O estudo mostra que as duas séries andam juntas com meio ano de atraso, não que uma empurra a outra.
  • •Prever o mês que vem. Com 16% de explicação, o modelo erra muito mês a mês. O exemplo mais recente: a Selic de janeiro de 2026 estava 2,66 pontos acima de um ano antes, o que apontaria vendas 8,0% menores em junho. Junho de 2026 veio 11,1% acima de junho de 2025. Outras forças pesaram mais.
  • •Falar de outras cidades ou de outros tipos de negócio. A base é o ITBI da capital paulista, e conta compras e vendas registradas, não lançamentos, não aluguéis, não a intenção de compra.
  • •Separar compra financiada de compra à vista. O campo de financiamento do ITBI vem preenchido em menos da metade das guias, e de forma irregular. Seria a pergunta mais interessante — e a base não sustenta a resposta.

E agora?

A Selic chegou a 14,90% ao ano e ficou nesse patamar do meio de 2025 até fevereiro de 2026. Desde março ela recua devagar: estava em 13,94% em agosto de 2026, 0,96 ponto abaixo de um ano antes.

Pela relação medida aqui, uma queda desse tamanho corresponde a algo como +2,9% nas vendas cerca de 5 meses depois — ou seja, entre o fim de 2026 e o começo de 2027. É uma direção favorável, mas de tamanho modesto, menor que a oscilação normal entre um mês e outro. Se o ciclo de cortes se aprofundar, o efeito cresce na mesma proporção.

Para quem está decidindo agora, a leitura prática é que o juro não é motivo para esperar nem para correr. O efeito dele sobre o mercado como um todo é real, mas lento e pequeno; sobre uma compra individual, o que pesa é a taxa do financiamento contratado, o preço negociado e o imóvel certo.

Ficha técnica

Fonte dos dados: Guias de ITBI pagas, publicadas pela Prefeitura de São Paulo, importadas e tratadas pela Flow Imóveis. Selic: Banco Central do Brasil, Sistema Gerenciador de Séries Temporais, série 4189 (taxa Selic acumulada no mês, anualizada).

Objeto
Compras e vendas de imóveis em São Paulo (capital) registradas no ITBI
Recorte
Compra e venda com transmissão integral (proporção transmitida acima de 99%), todos os tipos de imóvel, contadas pela data da transação
Período
Variações de 12 meses de jun/2007 a jul/2026 (230 meses); a Selic começa em 2006 para permitir a variação de 12 meses e o atraso
Métrica
Variação percentual das vendas contra o mesmo mês do ano anterior × variação em pontos percentuais da Selic no mesmo intervalo
Atraso
Testado de 0 a 15 meses; o pico da correlação define o atraso usado
Estatística
Correlação de Pearson e regressão linear simples. Significância por permutação em blocos de 12 meses (50.000 sorteios), para respeitar a dependência entre meses vizinhos
Robustez
Refeito sem 2020–2021 e sem 2015–2016
Limite
Correlação temporal, não causalidade. Não separa compra financiada de compra à vista

Perguntas frequentes

A Selic alta derruba as vendas de imóveis?+

Em São Paulo, sim, mas com atraso e com força moderada. Nos últimos vinte anos, cada ponto percentual a mais na Selic veio acompanhado de −3,0% nas compras e vendas registradas cerca de 5 meses depois. A Selic acompanha só 16% da oscilação das vendas; o resto vem de renda, crédito, emprego e confiança.

Quanto tempo a Selic leva para afetar o mercado imobiliário?+

O efeito mais forte aparece 5 meses depois da mudança do juro. Parte desse tempo é o próprio processo de compra — decisão, crédito, escritura e registro — e parte é o tempo que o juro leva para chegar à taxa do financiamento.

Com a Selic caindo, as vendas vão subir?+

A direção é favorável, mas o efeito é pequeno. A queda de 0,96 ponto acumulada em doze meses até agosto de 2026 corresponde, pela relação medida, a algo como +2,9% nas vendas entre o fim de 2026 e o começo de 2027 — menos que a oscilação normal entre um mês e outro.

Por que anos de juro alto às vezes têm muitas vendas?+

Porque o nível do juro não explica o volume. O mercado de São Paulo cresce por razões próprias ao longo do tempo, e o juro sobe e desce por outras. O que a Selic explica é o desvio em torno da tendência: vendas abaixo do esperado meses depois de uma alta, acima do esperado meses depois de um corte.

Posso citar este estudo?+

Pode, com crédito a "Estudos Flow Imóveis" e link para esta página. Recortes específicos — por tipo de imóvel, por faixa de preço ou por período — podem ser solicitados pelo WhatsApp desta página.

Imprensa e citação

Este estudo é de livre citação, com crédito e link para esta página. Jornalistas que precisarem de recortes específicos — por bairro, por faixa de metragem ou por prédio — podem falar diretamente com a equipe que produziu a análise.

FLOW IMÓVEIS. Selic e vendas de imóveis em São Paulo: o juro pesa, mas 5 meses depois. Estudos Flow, São Paulo, 5 de outubro de 2026. Disponível em: https://flowimoveis.imb.br/estudos/selic-e-vendas-de-imoveis-sao-paulo/
contato@flowimoveis.imb.br
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