Selic e vendas de imóveis em São Paulo: o juro pesa, mas 5 meses depois
Cruzamos duas décadas de compras e vendas registradas no ITBI com a taxa Selic. O nível do juro não diz nada; a mudança do juro diz — com 5 meses de atraso e menos força do que se costuma imaginar.
Publicado em · Por Flow Imóveis · CRECI 26.342-J · 7 min de leitura
- A pergunta, e por que a resposta óbvia está errada
- Como medimos: a mudança de um contra a mudança do outro
- O efeito aparece com atraso — e o atraso não foi escolhido a dedo
- Quanto pesa
- Juro subindo, juro caindo
- O resultado sobrevive quando tiramos as crises
- Ano a ano: por que o nível engana
- O que o dado não permite dizer
- E agora?
A pergunta, e por que a resposta óbvia está errada
Juro alto encarece o financiamento, e financiamento é o que move boa parte das compras de imóvel. Então, quando a Selic sobe, as vendas caem — certo? A pergunta parece de resposta pronta. Os dados de São Paulo dizem que ela é verdadeira só em parte, e de um jeito diferente do que se costuma contar.
O primeiro teste que quase todo mundo faria é comparar a Selic média de cada ano com o número de vendas daquele ano. Feito com vinte anos de ITBI, ele dá correlação de −0,02 — ou seja, nenhuma. Anos de juro alto tiveram muitas vendas, anos de juro baixo tiveram poucas, e vice-versa.
Isso não quer dizer que o juro não importa. Quer dizer que comparar níveis é a pergunta errada: o mercado de São Paulo cresce ao longo do tempo por razões próprias, e o juro sobe e desce por outras. Correlacionar as duas séries cruas mede a maré de cada uma, não a relação entre elas.
Como medimos: a mudança de um contra a mudança do outro
Em vez do nível, o estudo compara variações de 12 meses dos dois lados: quanto as vendas de um mês cresceram ou caíram em relação ao mesmo mês do ano anterior, contra quantos pontos a Selic subiu ou caiu no mesmo intervalo. Essa troca resolve dois problemas de uma vez — remove a tendência de longo prazo e remove a sazonalidade, porque cada mês é comparado com ele mesmo.
As vendas vêm das guias de ITBI de São Paulo: compra e venda com transmissão integral do imóvel, contadas pela data da transação. A Selic é a série oficial do Banco Central.
O efeito aparece com atraso — e o atraso não foi escolhido a dedo
Testamos todas as defasagens de 0 a 15 meses: a mudança da Selic de um mês contra a mudança das vendas no mesmo mês, um mês depois, dois meses depois, e assim por diante. A correlação começa fraca, cresce, atinge o pico em 5 meses e depois decai devagar.
| Atraso (meses) | Meses comparados | Correlação |
|---|---|---|
| 0 | 235 | −0,25 |
| 1 | 234 | −0,31 |
| 2 | 233 | −0,35 |
| 3 | 232 | −0,38 |
| 4 | 231 | −0,39 |
| 5 | 230 | −0,40 |
| 6 | 229 | −0,40 |
| 7 | 228 | −0,39 |
| 8 | 227 | −0,38 |
| 9 | 226 | −0,36 |
| 10 | 225 | −0,33 |
| 11 | 224 | −0,29 |
| 12 | 223 | −0,26 |
O formato importa mais que o pico. Uma curva que sobe e desce suavemente, com um único máximo, é o que se espera de um efeito real que se espalha no tempo. Ruído produziria picos soltos em atrasos sem sentido.
O atraso também tem explicação prática. O ITBI registra a transmissão do imóvel, que vem depois da decisão de compra, da aprovação do crédito e da escritura. Parte desses meses é o tempo do próprio processo de compra; a outra parte é o tempo que o juro leva para chegar à taxa do financiamento e ao bolso de quem compra.
Quanto pesa
No atraso de 5 meses, cada ponto percentual a mais na Selic veio acompanhado, em média, de uma queda de 3,0% nas vendas. Uma alta de três pontos no juro corresponde a algo perto de 9% menos negócios meio ano depois.
A correlação é de −0,40 em 230 meses. Para saber se isso poderia ser acaso, embaralhamos a série de vendas em blocos de 12 meses — e não mês a mês, porque meses vizinhos se parecem e embaralhá-los um a um exageraria a confiança. A chance de uma relação dessa força surgir por acaso ficou em 0,0005.
A Selic acompanha só 16% da oscilação das vendas. Os outros 84% são renda, emprego, crédito imobiliário, lançamentos, confiança e tudo o mais que move o mercado. O juro é um fator relevante, não o fator.
Juro subindo, juro caindo
Separando os meses pela direção da Selic 5 meses antes, a diferença fica visível sem estatística nenhuma:
| Selic 5 meses antes | Meses | Vendas: variação média | Variação mediana |
|---|---|---|---|
| Selic subindo | 101 | −8,7% | −10,4% |
| Selic estável | 14 | +10,2% | +10,1% |
| Selic caindo | 91 | +8,6% | +7,8% |
Com o juro subindo, as vendas encolheram em média; com o juro caindo ou parado, cresceram. O grupo "estável" tem poucos meses e não serve para tirar conclusão própria.
O resultado sobrevive quando tiramos as crises
Duas anomalias poderiam estar fabricando a relação: a pandemia, quando juro e vendas despencaram e se recuperaram ao mesmo tempo, e a recessão de 2015–2016. Refizemos a conta sem elas.
| Recorte | Meses | Correlação | Efeito de +1 ponto |
|---|---|---|---|
| Série completa | 230 | −0,40 | −3,0% |
| Sem 2020–2021 (pandemia) | 206 | −0,46 | −2,4% |
| Sem pandemia e sem 2015–2016 (recessão) | 182 | −0,55 | −2,2% |
A correlação fica mais forte, não mais fraca: vai de −0,40 para −0,55. As crises atrapalhavam o sinal em vez de criá-lo. É o oposto do que acontece quando um resultado depende de alguns meses extremos.
Ano a ano: por que o nível engana
A tabela anual mostra o problema da comparação ingênua. 2015 e 2016 tiveram Selic alta e poucas vendas; mas 2023 e 2025 tiveram Selic igualmente alta e vendas muito maiores. O mercado de 2025 não é o de 2015 — e o que a Selic explica é o desvio em torno dessa trajetória, não a trajetória.
| Ano | Selic média | Compras e vendas | Variação no ano |
|---|---|---|---|
| 2006 | 15,28% | 90.436 | — |
| 2007 | 11,98% | 97.424 | +7,7% |
| 2008 | 12,35% | 109.948 | +12,9% |
| 2009 | 10,06% | 100.722 | −8,4% |
| 2010 | 9,80% | 103.542 | +2,8% |
| 2011 | 11,66% | 97.301 | −6,0% |
| 2012 | 8,53% | 93.223 | −4,2% |
| 2013 | 8,18% | 94.532 | +1,4% |
| 2014 | 10,86% | 78.808 | −16,6% |
| 2015 | 13,37% | 64.506 | −18,1% |
| 2016 | 14,08% | 57.693 | −10,6% |
| 2017 | 10,08% | 63.524 | +10,1% |
| 2018 | 6,48% | 68.727 | +8,2% |
| 2019 | 5,94% | 78.251 | +13,9% |
| 2020 | 2,79% | 80.413 | +2,8% |
| 2021 | 4,42% | 112.920 | +40,4% |
| 2022 | 12,43% | 90.136 | −20,2% |
| 2023 | 13,20% | 87.730 | −2,7% |
| 2024 | 10,84% | 102.503 | +16,8% |
| 2025 | 14,32% | 106.247 | +3,7% |
Mesmo no anual, a relação aparece quando se compara variação com variação: a mudança da Selic média de um ano para o outro contra a mudança das vendas tem correlação de −0,39.
O que o dado não permite dizer
Os limites deste estudo são tão importantes quanto o resultado.
- •Que a Selic causa a queda. A Selic sobe quando a inflação aperta, e o mesmo aperto corrói renda, encarece o crédito por outros canais e derruba a confiança. Qualquer um desses pode ser o que de fato move as vendas. O estudo mostra que as duas séries andam juntas com meio ano de atraso, não que uma empurra a outra.
- •Prever o mês que vem. Com 16% de explicação, o modelo erra muito mês a mês. O exemplo mais recente: a Selic de janeiro de 2026 estava 2,66 pontos acima de um ano antes, o que apontaria vendas 8,0% menores em junho. Junho de 2026 veio 11,1% acima de junho de 2025. Outras forças pesaram mais.
- •Falar de outras cidades ou de outros tipos de negócio. A base é o ITBI da capital paulista, e conta compras e vendas registradas, não lançamentos, não aluguéis, não a intenção de compra.
- •Separar compra financiada de compra à vista. O campo de financiamento do ITBI vem preenchido em menos da metade das guias, e de forma irregular. Seria a pergunta mais interessante — e a base não sustenta a resposta.
E agora?
A Selic chegou a 14,90% ao ano e ficou nesse patamar do meio de 2025 até fevereiro de 2026. Desde março ela recua devagar: estava em 13,94% em agosto de 2026, 0,96 ponto abaixo de um ano antes.
Pela relação medida aqui, uma queda desse tamanho corresponde a algo como +2,9% nas vendas cerca de 5 meses depois — ou seja, entre o fim de 2026 e o começo de 2027. É uma direção favorável, mas de tamanho modesto, menor que a oscilação normal entre um mês e outro. Se o ciclo de cortes se aprofundar, o efeito cresce na mesma proporção.
Para quem está decidindo agora, a leitura prática é que o juro não é motivo para esperar nem para correr. O efeito dele sobre o mercado como um todo é real, mas lento e pequeno; sobre uma compra individual, o que pesa é a taxa do financiamento contratado, o preço negociado e o imóvel certo.
Ficha técnica
Fonte dos dados: Guias de ITBI pagas, publicadas pela Prefeitura de São Paulo, importadas e tratadas pela Flow Imóveis. Selic: Banco Central do Brasil, Sistema Gerenciador de Séries Temporais, série 4189 (taxa Selic acumulada no mês, anualizada).
- Objeto
- Compras e vendas de imóveis em São Paulo (capital) registradas no ITBI
- Recorte
- Compra e venda com transmissão integral (proporção transmitida acima de 99%), todos os tipos de imóvel, contadas pela data da transação
- Período
- Variações de 12 meses de jun/2007 a jul/2026 (230 meses); a Selic começa em 2006 para permitir a variação de 12 meses e o atraso
- Métrica
- Variação percentual das vendas contra o mesmo mês do ano anterior × variação em pontos percentuais da Selic no mesmo intervalo
- Atraso
- Testado de 0 a 15 meses; o pico da correlação define o atraso usado
- Estatística
- Correlação de Pearson e regressão linear simples. Significância por permutação em blocos de 12 meses (50.000 sorteios), para respeitar a dependência entre meses vizinhos
- Robustez
- Refeito sem 2020–2021 e sem 2015–2016
- Limite
- Correlação temporal, não causalidade. Não separa compra financiada de compra à vista
Perguntas frequentes
A Selic alta derruba as vendas de imóveis?+
Em São Paulo, sim, mas com atraso e com força moderada. Nos últimos vinte anos, cada ponto percentual a mais na Selic veio acompanhado de −3,0% nas compras e vendas registradas cerca de 5 meses depois. A Selic acompanha só 16% da oscilação das vendas; o resto vem de renda, crédito, emprego e confiança.
Quanto tempo a Selic leva para afetar o mercado imobiliário?+
O efeito mais forte aparece 5 meses depois da mudança do juro. Parte desse tempo é o próprio processo de compra — decisão, crédito, escritura e registro — e parte é o tempo que o juro leva para chegar à taxa do financiamento.
Com a Selic caindo, as vendas vão subir?+
A direção é favorável, mas o efeito é pequeno. A queda de 0,96 ponto acumulada em doze meses até agosto de 2026 corresponde, pela relação medida, a algo como +2,9% nas vendas entre o fim de 2026 e o começo de 2027 — menos que a oscilação normal entre um mês e outro.
Por que anos de juro alto às vezes têm muitas vendas?+
Porque o nível do juro não explica o volume. O mercado de São Paulo cresce por razões próprias ao longo do tempo, e o juro sobe e desce por outras. O que a Selic explica é o desvio em torno da tendência: vendas abaixo do esperado meses depois de uma alta, acima do esperado meses depois de um corte.
Posso citar este estudo?+
Pode, com crédito a "Estudos Flow Imóveis" e link para esta página. Recortes específicos — por tipo de imóvel, por faixa de preço ou por período — podem ser solicitados pelo WhatsApp desta página.
Imprensa e citação
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